Stranger Topics | Tendências para a década 2020

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Publicado a 4 de dezembro de 2019


A conquista do espaço, Internet para todos e energia infinita

Historicamente o custo de lançamentos de foguetes desde a era espacial tem se mantido muito alto, na faixa dos USD 100 mi e USD 300 milhões de dólares por lançamento. Porém nos últimos anos novas empresas introduziram soluções com custo muito mais competitivo graças a recentes desenvolvimentos como novos materiais e impressão 3D por exemplo.  

A Rocket lab da Nova Zelândia planeja lançar um foguete por semana já no próximo ano e se tudo correr bem, os lançamentos passam a ser diários. O preço para colocar seu satélite em órbita deve ficar em torno de 5 milhões de dólares. 60 vezes menor do que os lançamentos tradicionais de foguetes da antiga geração. A Virgin Orbit, de Richard Branson testou este ano seu “cosmic girl”, um boeing que leva um foguete e faz o seu lançamento da estratosfera. A empresa divulgou que o custo do lançamento será de menos de 10 milhões de dólares. Lembrando que cada foguete pode carregar vários nano-satélites, que entre outras funções, podem prover Internet rápida para o planeta. 

Amazon lançou o projeto Kuiper com objetivo de colocar uma “constelação” de mais de 3 mil satélites para prover Internet de alta velocidade em todo o planeta. A SpaceX, já lançou 60 satélites em órbita do planeta com o mesmo objetivo e o plano é chegar a 12 mil satélites. Além disso, os foguetes da SpaceX funcionam como os serviços de ride-share, qualquer empresa pode por o seu pequeno satélite de até 150kg em órbita por menos de USD 2.25 milhões.

Em 1972 astronautas da Apollo 11 trouxeram de volta para terra amostras de rochas da cratera lunar Camelot. 13 anos depois, cientistas da Universidade de Wisconsin descobriram que tais amostras eram ricas em um elemento raro chamado Helium-3, um isótopo mais leve que o elemento original (com mais neutrons). O Helium-3 tem o potencial de gerar energia através da técnica de fusão nuclear (a mesma usada nas usinas atômicas atuais) mas com o benefício de não gerar material radioativo, como é o caso do urânio. Os exploradores do espaço sem dúvida estão de olho nesta oportunidade que representaria geração de energia muito mais barata e trilhões de dólares em economia e talvez a extinção por completa dos combustíveis fósseis.


 

Jornalistas geralmente gostam de associar avanços tecnológicos a desemprego e concentração de riqueza, entretanto os últimos três séculos de história mostram que a sociedade se beneficia no médio e longo prazo. Isto porque mesmo que tais avanços concentrem riquezas nas mãos dos acionistas das empresas que os criaram, estes mesmos avanços trazem ganhos de produtividade que por sua vez geram crescimento econômico distribuídos por toda a população.

Um exemplo clássico é o caso dos fertilizantes. Em 1931, dois cientistas alemães levaram o prêmio Nobel pela invenção de um método para sintetizar o Nitrogênio, elemento essencial para a fotossíntese das plantas e principal componente dos fertilizantes. Este avanço possibilitou o uso de grandes quantidades de fertilizantes no mundo inteiro a uma fração do custo da alternativa passada que era importar Guano (uma substância derivada de dejetos de pássaros e morcegos) do Chile e Peru. 

Porque já somos diariamente bombardeados por previsões de catástrofes econômicas e cataclismas naturais, apresentamos neste artigo uma perspectiva otimista para as próximas décadas com base nos trabalhos que cientistas e empreendedores estão desenvolvendo agora em seus laboratórios e empresas. O que se segue são, em nossa visão, os componentes fundamentais da nova arquitetura do futuro sendo criada ao redor do planeta.


Veículos autônomos e compartilhados 

Uber e Lyft combinados possuíam em setembro juntos cerca de 72 bi de dólares de valor de mercado. A título de comparação, a Lufthansa, a maior companhia aérea da Europa tem valor de menos de 8 bilhões de dólares. Isto porque investidores e analistas enxergam o valor e o potencial do transporte compartilhado e apostam no futuro. Brigas com taxistas a parte, o transporte compartilhado no Brasil por exemplo transformou as metrópoles do país mais do que qualquer política pública. Os brasileiros fizeram 1 bilhão de viagens somente no ano passado. Tais números refletem somente o começo da curva da disrupção que o mercado de transporte irá sofrer na próxima década.

O anúncio do Google sobre seu projeto de lançar um veículo autônomo para o grande público lançou ondas pelo globo e despertou os gigantes da indústria automobilística e empresas como Uber. O efeito manada é positivo para o consumidor que agora assiste da plateia a uma corrida ao ouro de pelo menos 20 grandes players. 

O carro autônomo promete acabar com o problema de estacionamento nas grandes cidades, o desperdício de combustível, a maioria já nasce elétrico e portanto contribui para diminuir as emissões de gases no meio-ambiente. Na indústria, caminhões e veículos de cargas autônomos já estão sendo usados para transportar containers em portos e nos arredores de Frankfurt, a autobahn já possui uma via exclusiva para estes veículos.

A economia de escala que esta tecnologia vai proporcionar e o aumento de produtividade só vai poder ser medido quando as primeiras cidades o adotarem pra valer. Dá pra imaginar nunca mais chegar atrasado a uma reunião porque o taxista errou o caminho ou receber na varanda da sua casa uma garrafa de Rioja para o jantar entregue por um drone. O futuro promete.

 

Stream, Games, realidade estendida e uma pitada de IA

Com a inclusão do próximo bilhão de pessoas na economia digital, os atuais líderes de consumo de mídia por streaming, Amazon, Netflix, Apple, Disney  e Spotify, buscarão a consolidação. A Microsoft também corre por fora com games e pode até virar líder no segmento ( a empresa pode partir para aquisições como o Fortnite, por exemplo).  Entretanto, como a história da inovação demonstra, em um mercado gigantesco como o de mídia, sempre haverá espaço para novos entrantes com produtos e serviços que nem imaginamos.  

A promessa da realidade estendida combinada com software inteligente pode finalmente criar ambientes imersivos que mudam radicalmente o modo como nos comunicamos, criamos, consumimos mídia, compramos e aprendemos. Imagine os efeitos na introdução da planilha de cálculo, do processador de textos e da world wide web. Nomes de peso no mercado global acreditam que XR terá impacto parecido. 

De todos os setores, a indústria da Educação, que mudou muito pouco desde a Grécia antiga, poderá ser uma das mais afetadas por tudo isto. Tutores artificiais inteligentes em ambientes de completa imersão e acoplados a módulos de socialização com outros alunos podem redefinir a sala de aula de forma tão radical que poucos dos atuais players devem sobreviver. Será um espetáculo de destruição criativa cem vezes mais potente que o desaparecimento das famosas locadoras de DVDs, como a Blockbuster. Em exibição entre 2030 e 2040. 

Entendendo seres humanos

O campo de NLP (Natural Language Processing) é tão antigo quanto a própria área da Inteligência Artificial. Turing em seu famoso artigo de 1950 “Computing Machinery and Intelligence” introduziu a ideia de um teste a ser aplicado a qualquer hardware/software que pudesse simular uma conversa com um ser humano e este tomar a tal máquina por outro ser humano. 70 anos depois nenhum sistema inteligente conseguiu ainda passar no teste proposto pelo pai da IA, mas empresas como o Google, a Amazon e a Microsoft obtiveram avanços significativos nessa direção.

Na próxima década teremos acesso a software cada vez mais sofisticado que será capaz de traduzir textos quase como um ser humano, dialogar com uma secretária para marcar uma consulta médica ou fazer uma compra on-line, auxiliar um consumidor a utilizar uma nova máquina ou consertar o seu ar-condicionado. Com interfaces baseadas em voz e que permitam uma comunicação natural (com expressões do dia-a-dia), a digitalização do planeta estará consolidada. Pessoas em qualquer lugar do planeta poderão se comunicar mais facilmente com as máquinas, fazer perguntas sobre saúde ou receitas culinárias, aprender a distância ou interagir com outros indivíduos ao seu redor.

No final da década de 2020 sistemas de NLP conseguirão ler milhares de artigos científicos e serão capazes de resumir o conhecimento destes artigos e produzir novo conhecimento através de sofisticados processos de inferência. Pela primeira vez na história, inteligência residente em software será capaz de realizar suas próprias descobertas científicas: uma nova droga, hipóteses sobre fenômenos naturais, novos materiais, genética ou qualquer área do conhecimento humano.

 

 

Robôs e automação

Embora o imaginário popular esteja cheio de histórias sobre humanóides saídos dos desenhos animados dos Jetsons ou de filmes como Terminator e Star Wars, no mundo real a robótica é muito mais abrangente do que a ficção científica e muito mais sútil. Qualquer máquina que exiba algum comportamento inteligente pode ser qualificada como um robô. desde que você programou o seu primeiro microondas ou aguardou o timer de uma torradeira, você inadvertidamente já estava usando ferramentas de automação. 

Um dos exemplos que rodaram o mundo nas manchetes digitais de iphones e androids foi o grupo de pesquisa que treinou braços robôs para montar uma cadeira da mesma empresa que quer liderar o smart living, a IKEA. Nas grandes cidades da Ásia, onde o metro quadrado atingiu preços estratosféricos, os consumidores podem comprar móveis que ficam pendurados no teto enquanto a dona da casa recebe amigos para jantar ou faz yoga.

Menos conhecido, mas igualmente surpreendente, é o projeto DFAB House desenvolvido em Zurich pelo The National Centre of Competence in Research (NCCR) Digital Fabrication. que combina drones, 3D printing com robôs para automatizar as tarefas repetitivas da construção de habitações. Projetos semelhantes estão em andamento em Eindhoven, na Holanda, Singapura, EUA e China. A combinação de impressão 3D e robótica gera menos desperdício de material e mais velocidade na finalização das casas. Novamente o padrão que conhecemos da história do fertilizante se repete: novas tecnologias criando riqueza, neste caso ao diminuir custos de fabricação.    

Quanto mais perto a próxima década fica, mais lemos sobre as possibilidades da robótica no mais variados segmentos.Do outro lado do atlântico, Aerofarms e Plenty são duas empresas americanas que anunciaram projetos de agricultura vertical com produtividade da ordem de mais de 135 vezes do que métodos tradicionais além de usar 95% menos água e zero agroquímicos. Também aqui o uso de automação para mover as placas com as plantas e regular a luz desejada (os técnicos descobriram que o sabor das plantas cultivadas variam de acordo com os ajustes das ondas de luz emitidas pelos leds!).

Do outro lado do atlântico, a rede online de varejo Ocado no Reino Unido automatizou seu depósito com robôs que se movem em uma grade com coordenadas X e Y controlados por algoritmos semelhantes aos que existem nos aeroportos para o controle do tráfego aéreo.

O uso da robótica nos mais variados segmentos da economia deve começar a ser sentido na segunda metade da década de 2020. Imaginem: robôs construindo habitações populares e seguras no continente Africano;  fazendas verticais em comunidades pobres da América Latina ou serviços RaaS (Robots As A Service) que você utiliza para montar todos os móveis da sua nova casa. O futuro trará certamente muito mais robôs na sua vida.

 

Casas Inteligentes

A IKEA anunciou este ano uma nova divisão de smart home que cuidará exclusivamente do desenvolvimento de projetos da empresa sueca para a casa do futuro. Sendo a líder em diversos países em vendas de móveis e decoração, a IKEA é mais do que uma loja de camas e sofás. A empresa é uma plataforma que hoje é usada por 1 bilhão de pessoas no mundo. De lâmpadas inteligentes a cortinas operadas por comandos de voz, a IKEA se posiciona para trabalhar com os fornecedores de plataformas de IA como a Amazon, o Google, a Apple e a Microsoft para criar a casa do século XXI. 

Longevidade e smart homes são uma combinação que faz muito sentido do ponto de vista econômico, e estas empresas sabem disso. Elas estão mirando na população mais velha das próximas décadas que estarão mais em casa, trabalhando ou aposentadas e com mais tempo para usufruir dos confortos que esta tecnologia pode proporcionar.

 


 

Longevidade

Em 1901 a expectativa de vida nos EUA era de 49 anos. No final do século XX esta expectativa atingiu os 77 anos. Se pensarmos que em 1901 nem os fertilizantes nem a penicilina haviam sido descobertos, começamos a entender o porquê deste incremento impressionante. Analogamente, por causa de novos significativos avanços tecnológicos que serão introduzidos nas próximas décadas espera-se por um novo salto nesta média; alguns autores arriscam uma expectativa de 130 anos para o final do século XXI. 

Uma população que vive mais e melhor vai desenvolver novas necessidades e hábitos e com isto criar novos nichos no mercado inimagináveis até hoje. Além das indústrias mais óbvias como turismo e saúde, entretenimento, assistentes inteligentes, e-commerce, sistemas de telepresença e de realidade aumentada são segmentos do mercado com potencial para acrescentar dezenas de bilhões de euros anuais a economia mundial.